O ato de empreender necessita de um propósito. Para muitos, a criação de um negócio está vinculada a uma meta profissional ou a uma visão de lucro; para outros, o sentido maior está em ajudar as pessoas.

Este é o caso do nosso residente Marcos Roberto, um brasiliense de 32 anos, que resolveu dar uma guinada na sua carreira sempre voltada para a inovação e fundar a meViro, uma organização não-governamental que trabalha com a criação e disponibilização gratuita de projetos assistivos para portadores de algum tipo de deficiência.

"De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 45 milhões de pessoas com Deficiência (PCDs), isso corresponde a 24% da população brasileira"

Marcos Roberto

A meViro atua em duas frentes: a primeira é na oferta de um repositório online de projetos que ensinam os deficientes a fazerem eles mesmos suas soluções assistivas; a segunda é a promoção de oficinas em diversos lugares no país, onde makers e deficientes se encontram para pensar em projetos que atendam às suas necessidades especiais. Esses encontros já aconteceram em 16 estados brasileiros.

O projeto é tão especial que o Marcos foi um dos 15 selecionados para participar da Red Bull Amaphiko Academy, um programa que conecta e impulsiona inovadores sociais que estão impactando positivamente seus territórios. A meViro concorreu com mais 450 outros projetos no país.

A paixão por criar vem de berço

A principal inspiração do Marcos para ingressar nesse mundo de inovação foi o seu tio Zé Luciano, considerado o "Santos Dumont de Unaí" porque construiu sozinho um avião. Do zero! Marcos lembra de visitar o seu tio e ficar fascinado com sua paixão pela invenção, pela tecnologia.

Aos 12 anos, o seu pai lhe apresentou um scanner de mão e ele logo se interessou por desenhar no computador; criou um jornal com notícias de turismo, que a mão imprimia e ele vendia para a família. "Ali eu descobri que podia criar e ganhar dinheiro com isso", conta. Com 14 anos ele assistiu o filme “Hacker”, com a Angelina Jolie, fez um curso e começou a programar. Cursou Ciências da Computação na Unb (“claro, não tinha outro curso, né?”, diz) e montou sua primeira empresa de desenvolvimento web, a Wee (ele jura que foi antes do videogame!). Depois foi um dos sócios da empresa Intacto, participou da equipe que desenvolveu um mensurador de redes sociais, O Qual Canal, que acabou se tornando uma spin off, e recebeu aporte de empresas do Vale do Silício. Marcos também desenvolveu o Urbanizo, um programa robô que criava uma base de dados dos mercados imobiliários, e que depois foi vendido para uma empresa argentina. Até aí, Marcos sempre focou em sua carreira profissional, em ganhar grana, até que a vida começou a cobrar algo mais.

 

Manifesto Coworking - o que fez você largar seus projetos anteriores para criar um negócio social?

Marcos Roberto - Eu já estava produzindo alguns projetos pessoais como um comunicador satélite que eu usava nas minhas escaladas, uma bicicletinha elétrica, voltando para meu lado maker, até que eu conheci o Enable, um projeto global de doações de próteses para crianças amputadas. A minha impressora 3D estava um pouco parada e quando eu vi o projeto, achei incrível, imprimi a primeira prótese na madrugada. Um amigo meu jornalista pediu para fazer uma matéria sobre a prótese e eu topei desde que não fosse sensacionalista. Saiu na capa do jornal e vários veículos começaram a me ligar. Falei não pra todo mundo porque eu nem sabia o que estava fazendo, mas um portal da grande imprensa me procurou e eu criei a Protesys, um site que conectada pessoas que queriam ajudar e as que precisavam ser ajudadas. E aí a matéria foi publicada. Viajei para a Chapada e fiquei sem celular, quando voltei, tinha mil e-mails com histórias sinistras de pessoas que precisavam de ajuda ou queriam participar da produção de próteses. Saí da empresa para a qual eu ainda prestava serviço e disse: ‘vou investigar isso aqui’.

MC - E como a Protesys deu lugar à meViro?

Marcos - Então, resolvi sair da empresa e investir na produção de próteses. Fiz uma chamada para makers que estavam interessados em evoluir a prótese, até chegar em algo bala. Comecei a testar, as pessoas levaram pra casa, mas percebi que, depois de algum tempo, as pessoas não usavam mais a prótese. Ela era confortável, mas não tinha muitos movimentos que eram necessários para quem não tinha a mão. Então eu tinha que tomar uma decisão: ou eu continuava a pesquisa para uma prótese melhor ou fosse para o lado mais social de criar algo que as pessoas pudessem construir, que se quebrasse elas conseguiriam consertar sozinhas. E como as pessoas que não tinham as pinças nas mãos também estavam me procurando para soluções, comecei a perceber que elas precisavam de ajuda para resolver um problema com algo mais acessível.


MC - Cita um exemplo pra gente, por favor.

Marcos - Então, uma cadeirante tetraplégica, por exemplo, que consegue mover os braços, quando vai ao banheiro, não consegue abrir o zíper da calça porque não tem a pinça da mão. A gente consegue resolver essa limitação com o arame de um chaveiro simples no zíper, que já possibilita que a pessoa consiga, com o polegar, abrir a calça. Esses são os tipos de soluções que estão disponíveis na meViro, projetos assistivos que qualquer pessoa pode fazer. Aí comecei a entrar no mundo maker e fazer coisas mais simples como um copo antitremor feito com rolamento de skate; um mouse de boca para tetraplégico com piteira de cigarro eletrônico, entre outras coisas. Então descobri esse mundo que ainda tinha a ver com as próteses, mas que tinha um impacto muito maior e mais real na vida das pessoas.

MC - E como funciona a meViro?

Marcos - A primeira parte foi criar um repositório desses projetos assistivos com passo a passo de como construir, com uma pegada “faça você mesmo”. Em paralelo com os projetos, temos as oficinas de cocriação, quando juntamos pessoas com deficiência e makers. Essas pessoas com deficiência vão falar dos problemas que elas enfrentam e os makers vão buscar soluções, desde a problematização à prototipação. É muito importante que o deficiente esteja presente para que a solução realmente atenda à sua demanda.  E aí nós fazemos essas oficinas de várias formas, com alunos de escolas como makers, ou com pessoas que se inscrevam. Estamos montando uma oficina temática de mapas táteis, com a Red Bull, que vai ser realizada em breve em São Paulo. Estamos também em negociação com empresas para que funcionários encontrem soluções para melhorar o ambiente de trabalho para colegas deficientes. Os projetos criados vão para plataforma para que outras pessoas utilizem de forma gratuita. Hoje já são cerca de 80 projetos no site.

 Marcos palestrando na Campus Party

Marcos palestrando na Campus Party

MC - Como está esse movimento de projetos assistivos no Brasil?

Marcos - Pouca coisa ou quase nada, praticamente. Algumas empresas estão começando a investir agora como a Mercur, que criou uma área da empresa só para pensar em soluções para pessoas com deficiência. Iniciativas individuais são pouquíssimas, como a da ODKV que é uma bicicleta para cegos. Mas nada com formação de redes, são mais focadas em projetos específicos.

MC - Por que você acha que é algo tão incipiente no país?

Marcos - Acredito que seja uma questão cultural. O Brasil não olha para as pessoas com deficiência, é só ir numa escola para ver isso. Quantos deficientes estão em cargos administrativos altos? Pouquíssimos. Tem muita coisa na Universidade, pesquisa avançada, mas ainda não temos muita inovação aplicada no dia a dia das pessoas. Não está no mercado. Negócios sociais é algo muito novo no Brasil, é o que startup era há seis anos. E há muita dúvida sobre como desenvolver um negócio social hoje, os conceitos ainda estão sendo definidos. Tudo isso está relacionado à cultura empreendedora no Brasil, à educação de base.

MC - E a economia colaborativa em Brasília?

Marcos - Ah, ela está crescendo bastante no Brasil. Teve um momento de receio ao novo, de não saber se iria dar certo, e hoje você tem um movimento de vários coworkings surgindo em Brasília. As pessoas estão aprendendo a criar algo com propósito, mas ainda há muito para crescer.

MC - Por que você escolheu trabalhar aqui na comunidade do Manifesto?

Marcos - É a primeira vez, praticamente, que eu trabalho em um coworking. Já estava há dois anos em casa, mas estava sentindo a necessidade desse contato com outras pessoas. Sair um pouco do meu mundinho de criação. Escolhi o Manifesto porque acho que é o que tem mais estrutura. Cheguei aqui e ainda nem tinha internet, fui o primeiro cliente (risos). Achei tudo muito arrumado, em uma quadra histórica em Brasília, e achei bem incrível. Comecei a indicar para amigos e trouxe uma galera que também começou a trabalhar aqui. 

Saiba mais sobre a meViro no site oficial. https://www.meviro.org/

Queremos saber quem você é e como podemos te ajudar. Venha visitar o Manifesto Coworking e experimente trabalhar conosco. Para saber mais sobre nossos planos, é só clicar aqui. https://www.manifestocoworking.com/planos

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